FAMÍLIA MENEGHELLI - Nossa História


BRASÃO DA FAMÍLIA MENEGHELLI

O brasão é composto por uma caderna crescente de quatro folhas e espada em ouro sobre escudo, simbolizando a coragem e o espírito guerreiro da Família Meneghelli. O lay-out e informações sobre o brasão foram fornecidos por RAPHAEL MENEGHELLI, de Lages-SC. Segundo Raphael, o brasão foi entregue a ele por seu pai, já falecido, que foi um conceituado ourives de Santa Catarina.


APRESENTAÇÃO DO BLOG

Atendendo a inúmeras solicitações, esse blog foi reeditado com o intuito de oferecer maior facilidade no acompanhamento da narrativa proposta. Embora seja um blog de postagem diária, a história da família contida num manuscrito feito na década de 70 por HELENA MICELI ROSSINI (sobrinha de Hermenegildo Meneghelli), será relatada através de um texto corrido, possibilitando, portanto, a impressão da história de forma clara e organizada.

O manuscrito foi elaborado com o objetivo de atender ao pedido dos sobrinhos de Helena (Felipe e Antonietta), que desejavam conhecer melhor sua origem.

A narrativa tem início em 13 de junho de 1840, com o nascimento de Antonina, avó de Helena e  mãe de Hermenegildo, prosseguindo com a trajetória de seus descendentes até a chegada ao Brasil, onde fixaram residência em Colatina-ES e São Carlos-SP.

O nome de Hermenegildo Meneghelli aparecerá sempre destacado, porque ele era meu bisavô.

São 130 anos de uma belíssima história. Acompanhe, você vai ver que vale a pena!

Obrigada por sua visita e um grande abraço!

Tânia Meneghelli Suzuki


Manuscrito original de Helena Miceli Rossini

Esse manuscrito foi resgatado juntamente com uma série de documentos da família, por ocasião da pesquisa inicial do processo de solicitação da cidadania italiana para os descendentes diretos de Hermenegildo Meneghelli. Durante seis anos, ARLETE APPARECIDA MENEGHELLI RODRIGUES, neta de Hermenegildo, buscou informações e reuniu os documentos que compõem o complexo processo, finalmente aprovado pelo Consulado Italiano de São Paulo, em 2003. Até o momento aguardamos a efetiva concessão da cidadania.


Parte 1

 

ABERTURA DO MANUSCRITO

"Queridos sobrinhos, Antonietta e Felipe:

Um dia vocês me pediram para escrever a história de nossos antepassados. Atendendo a esse pedido, abrirei o cofre das recordações que me foram reveladas, a princípio por minha querida avó, sucessivamente por minha mãe, por familiares e, enfim, por lembranças próprias.

Devo dizer que tudo o que escreverei aqui é verdadeiro e nada acrescentarei. Devo dizer também que muitas das coisas que aqui estão registradas apenas eu fiquei sabendo. Nem mesmo meus irmãos souberam, pelo fato de eu estar mais tempo junto desses entes queridos. Peço a benevolência de todos os que lerem estes escritos para me perdoarem por erros e falhas, pois como verão mais adiante, não cheguei a completar o primário.

A casa dos Miceli (meus pais) situava-se à Rua Marechal Deodoro, esquina com Aquibadan, em São Carlos. A casa dos MENEGHELLI (meus avós) ficava na mesma rua, sendo a terceira casa do lado oposto à nossa. Ambas ainda existem, apenas com algumas modificações.

Quando eu tinha mais ou menos onze anos fui incumbida por minha mãe de levar diariamente o café da manhã para minha avó, tarefa que cumpria com muito prazer.
Entrava e lá estava ela, sentada segurando um terço, cujas contas deslizavam entre seus dedos, acompanhadas de fervorosa oração. Enquanto minha avó fazia sua refeição eu lhe arrumava os dois cômodos: quarto e sala. Ao terminar, sentava-me num pequeno banquinho a seus pés para que ela penteasse meus longos e abundantes cabelos, o que ela fazia cuidadosamente. Esse era um trabalho que ela fazia com amor, para aliviar um pouco das muitas tarefas de minha mãe. Depois de formar uma ou duas grossas tranças e prendê-las com uma fita, me convidava a sentar-me a seu lado, num banco para duas pessoas feito por meu avô, um carpinteiro muito esmerado nesse trabalho. E ali, naquele quarto humilde, que mais parecia um santuário silencioso e aconchegante, ela me contou sobre sua infância, tão cheia de amarguras.

Enquanto meu avô ajudava minha mãe, eu permanecia horas ao lado da nonina e, assim, ela foi relatando diariamente as tristezas e alegrias vividas na sua terra natal. Suas palavras ficaram gravadas na minha memória e nunca foram apagadas. Mas não foram apenas palavras que ficaram gravadas no meu íntimo. Ficaram também seu semblante, seu olhar distante e as lágrimas silenciosas que rolavam por sua face. Com o pensamento voltado para sua longínqua e querida Itália, ela me dizia: "Lenina, que saudade sinto de meu pai... Ele era um homem tão bom, um santo... Nunca mais tive notícias dele e de meus quatro irmãos". Pobrezinha! Ela falava comigo, confiava-me seus sentimentos e, apesar de minha pouca idade, recebia com amor suas confidências e as guardava no mais íntimo do meu coração.

Hoje, sou eu quem sente tanta saudade de ti, querida nonina!... PREGA! PREGA PER NOI!"




Escrito por Tânia às 01h30



Parte 2

 

ITÁLIA - MEUS BISAVÓS, LUIZ E MARIA VALLI

Tudo começou em Mantova


Numa pequena região chamada Porescia, em 13/06/1840 nasceu uma menina que, em homenagem a Santo Antonio, recebeu o nome de Antonina. Era a filha primogênita de um jovem casal. Seu pai, Luiz Valli, era marceneiro e sacristão; a mãe, Maria, era filha adotiva de um casal milionário, que residia numa região conhecida como Vila Garibaldi. Os pais costumavam mandar auxílio financeiro à Maria. Com a morte da mãe adotiva, seu pai enviou-lhe uma mensagem, pedindo que ela e o marido vendessem tudo o que possuíam e se mudassem para perto dele. Luiz e Maria aceitaram o convite com alegria e junto de seus cinco filhos empreenderam longa viagem de gôndola pelo Rio Pó. Finalmente chegaram ao destino, porém a angústia os invadiu: o pai também falecera e seus parentes não quiseram reconhecê-los.

O pobre casal desconhecido vagava pelas ruas com seus cinco filhos à procura de um abrigo, sempre sem sucesso. Cansados e abatidos, finalmente encontraram um cômodo úmido e frio, nos fundos de um prédio pertencente a uma rica senhora. Agradecidos a Deus, ali se alojaram e, com suas poucas economias, pagavam o aluguel. Para que as crianças pudessem tomar sol no pátio havia uma condição: sempre que fizessem a polenta deveriam entregar o fubá grosso que sobrava na peneira à senhoria. Isso servia para que ela alimentasse os pintinhos que criava.

Luiz começou, então, sua via sacra. Saía, dia após dia à procura de trabalho, sem nada conseguir. A vila era pequena e comportava apenas um profissional para cada ofício. As economias estavam acabando e Maria, sua esposa, tirava da canastra peças de seu enxoval, todo feito aos poucos e à mão, para vender.

Vista aérea de Mantova

Luiz era bom e honestíssimo. Porém, um dia, ao ver a esposa gravemente enferma e os filhos famintos, tomou uma difícil decisão. Apanhou um cesto e, aproveitando-se do grande movimento no armazém, pegou algumas mercadorias. Na saída, o comerciante o chamou e Luiz, envergonhado, humilhado, caiu em doloroso pranto, relatando-lhe sua situação. O negociante, compadecido, deu-lhe muito mais do que pedira.


MINHA QUERIDA AVÓ ANTONINA

Antonina, aos oito anos foi trabalhar como empregada na casa de uma tia viúva, Dona Mariana, riquíssima. Antes mesmo que o mês terminasse, seu pai recebia seu pequeno salário para as despesas da casa.

A tia não a tratava mal, porém, um dia, chamou-a até a sacada e disse: "Antonina... Estás vendo o enterro que está passando? É de tua mãe..." E assim, com o olhar distante e lágrimas a rolarem pela face, minha querida avó contou-me essa dolorosa passagem de sua vida.

Raquel, dezesseis anos, era filha única de Dona Mariana. Muito bondosa, afeiçoou-se à priminha e fez dela sua confidente, revelando-lhe segredos de seu coração adolescente (seu primeiro amor). Raquel amava e era sinceramente correspondida por um jovem auxiliar de ourives, cuja oficina ficava em frente à sacada de sua casa. A rua era estreita, ladeada por antigos sobrados e, assim, os jovens se correspondiam por mímicas. Dona Mariana foi informada desse namoro e repreendeu rigorosamente a filha, pois já planejava seu casamento com um "ricaço".

Para realizar negócios e fazer compras, Dona Mariana costumava ir à Mantova. Numa certa ocasião, antes de viajar, disse à filha que lhe traria ricos vestidos e jóias. Porém, se durante sua ausência se correspondesse com o tal rapaz receberia um grande castigo. Assim, antes de partir, pediu a Antonina que vigiasse sua filha. Ao regressar foi informada por pessoas pagas por ela sobre o encontro dos dois jovens. Abriu as malas e mostrou os lindos presentes que trouxera, mas a filha receberia apenas o castigo prometido.

Raquel possuía lindos cabelos castanhos, que realçavam ainda mais sua beleza. Sua mãe levou-a para um cômodo nos fundos da casa e com uma tesoura cortou-lhe a formosa cabeleira. As lágrimas e súplicas da filha não a comoveram. Antonina, que a tudo assistia, ficou estarrecida e tão angustiada que não quis mais permanecer na casa e voltou para a companhia do pai.

Passados diversos anos, vamos encontrar Antonina numa humilde casa. Ela transformou-se numa delicada jovenzinha, morena, de longos cabelos negros, lisos, presos por duas tranças em forma de coroa ao redor da cabeça. Dessa mesma forma ela continuou a se pentear até os últimos anos de sua vida.




Escrito por Tânia às 01h09




Parte 3

ANTONIO MENEGHELLI E ANTONINA VALLI
Casamento e filhos

Luiz, o pai de Antonina, trabalhava em uma carpintaria, cujo proprietário se chamava José Meneghelli (sua esposa era Luiza di Pauli; seus filhos, Batista, Leandro, Ângelo, Antonio e Maria Bruna, uma família muito estimada). Antonio era um jovem alto, vigoroso, de bela aparência e muito disputado pelas jovens, entre elas a filha de um rico industrial, que chegou a propor-lhe que, caso desposasse a filha, nem precisaria mais trabalhar, pois lhe daria um importante cargo em sua firma. Mas Antonio amava Antonina, aquela jovenzinha humilde, delicada e escondida como uma violeta. Assim, ela foi escolhida e ficaram noivos. Deus a premiava, dessa forma, após uma infância tão sofrida.

Algum tempo se passou e o casal se aproveitou de uma boa oportunidade para se unir definitivamente. A Rainha Margarida, esposa do Rei Humberto di Sabóia, deu a luz a seu primogênito, o Príncipe Victório Emanuele III. Para comemorar o acontecimento, a família real concedeu a graça de liberar do serviço militar todos os jovens que completassem 21 anos e se casassem no ano da comemoração. Antonio foi um dos agraciados, pois completaria 21 anos em 20 de julho daquele mesmo ano. Por esse motivo, o casamento com Antonina foi antecipado.

Antonio era bom, honesto e muito trabalhador. O casal era muito feliz e, para completar essa felicidade, nasceu seu primeiro filho, inundando o lar de alegria. Infelizmente essa felicidade durou pouco, pois o filho adoeceu e os médicos não conseguiram curá-lo. Assim, Guido faleceu ao completar um ano de idade, deixando seus pais inconsoláveis, principalmente Antonio.

O vigário da vila, que tinha muita amizade com seus paroquianos, convidou Antonio a acompanhá-lo até o cemitério. Lá chegando, dirigiram-se a diversas sepulturas e o vigário disse: "Vê, Antonio? Aqui tem um homem que era chefe de família e deixou sua esposa e filhos... Ali, uma mãe que também deixou filhos e esposo... Aceite a vontade de Deus. Guido é mais um anjinho a interceder por nós". Com essas e outras palavras de conforto o vigário conseguiu levar conformidade ao coração de Antonio.

O segundo filho nasceu e se chamava Teodósio (quem escolhia os nomes era o vigário). O menino cresceu rodeado de amor e carinho. Seus pais, com medo de perdê-lo também o mimaram demais. Em consequência disso, o menino tornou-se voluntarioso e cheio de caprichos. Teodósio estava com cinco anos quando nasceu, em 18/09/1870, uma menina que recebeu o nome de Ema Maria Elvira, a qual, posteriormente, assinaria apenas Elvira. O casal teve ainda os seguintes filhos: Polycarpo e Hermenegildo (nascido em 13/10/1875), além das meninas Cuintília e Cinira, que faleceram aos poucos meses de idade.


Certidão de nascimento de Hermenegildo Meneghelli

Esta é uma 2ª via da certidão, emitida no Consulado Italiano de São Paulo. O nome de Hermenegildo aparece sem o "H".



HÁBITOS

Era costume na região que todas as meninas, além de seus nomes próprios, recebessem também o nome de Maria, em homenagem à Virgem Maria. Era também uma obrigação imposta pelo governo, que todas as casas mantivessem nos fundos de seus quintais um pequeno chiqueiro para a criação de leitõezinhos, que deveriam ser consumidos apenas no inverno, já que no verão era proibido comer carne de porco, sob pena de multa.

No quintal da família havia também um pequeno jardim, uma horta e um pomar, tudo muito bem cuidado. Antonio também instalou ali uma pequena oficina de carpintaria, onde trabalhava das quatro horas da madrugada até altas horas da noite. Ele possuía habilidade para trabalhar com ambas as mãos ao mesmo tempo. Também era outra característica marcante sua preparar o próprio café, sem açúcar, toda noite.
Antonio era carpinteiro da prefeitura local e além de suas atividades normais também fabricava caixões para os mortos. Além disso, era também encarregado de abrir enormes tonéis de vinho, um trabalho que muito lhe agradava. Era um hábito bastante comum tomar vinho até mesmo no café da manhã, prática adotada inclusive por mulheres e crianças, que não ficavam embriagados. O vinho, assim como o sal, era fornecido às famílias gratuitamente pelo governo.

Outra doação feita pela prefeitura, na época, era uma certa quantidade de bichos da seda, que deviam ser cuidadosamente tratados com limpeza diária e alimentação à base de folhas de amoreira, para que procriassem. Esse trabalho era executado pelas mulheres e crianças. Após determinado período de tempo, a criação era entregue à prefeitura que dividia os lucros com as famílias.

Na véspera da Páscoa, durante o sono das crianças, Antonina coloria ovos cozidos com anilina, colocando-os em pequenos cestinhos escondidos entre folhagens. Na manhã seguinte, as crianças procuravam por eles entre risos e muita alegria. Era uma festa!

Nessa época também não havia a figura do Papai Noel. Quem trazia os brinquedos para as crianças era Santa Luzia, em 13 de dezembro. o último presente que Elvira ganhou não lhe agradou muito: um carretel de linha, agulha, tesoura e fita métrica.




Escrito por Tânia às 23h25




Parte 4

 

Teodósio, Polycarpo, Hermenegildo e Elvira

Certo dia, na casa de Elvira, ouviu-se um estrondo no andar de cima. Elvira logo exclamou: "Meu cofre!...". Com o coraçãozinho batendo fortemente subiu correndo as escadas e viu seu cofrinho de barro caído no chão, quebrado, moedinhas espalhadas. Teodósio fizera isso! Houve muito choro e lamentação, mas após repreender rigorosamente Teodósio, os pais improvisaram um novo cofre para Elvira.

Em outra ocasião, Teodósio chegou em casa radiante, trazendo uma tarrafa de pescador. O pai indagou onde havia encontrado aquilo e ele respondeu: "No rio!"  O pai, então, lhe disse: "Venha comigo. Você vai colocar isso no lugar onde encontrou, porque alguém deve ter deixado lá e virá buscar depois". Durante o trajeto, o repreendeu severamente, o que lhe serviria de lição dali por diante.

Teodósio não quis aprender o ofício do pai. Queria viajar, conhecer o mundo. Para tanto, contra a vontade de seus pais, começou a mascatear nas fazendas e regiões vizinhas. Para atingir seu objetivo, realizava qualquer trabalho. Assim, foi garçom, ajudante de navio, ajudante de enfermagem etc. Este último emprego lhe foi bastante útil em seus últimos anos de vida, como veremos mais adiante. Os pais tentavam demovê-lo dessa idéia, sempre em vão. Antonio chegou a ir ao consulado pedir para que lhe negassem o passaporte, porém, isso não foi possível, já que não havia motivo justo para tanto.

Teodósio era muito inconstante, um boêmio. Da mesma forma que desaparecia sem que ninguém soubesse de seu paradeiro, inesperadamente retornava. Numa certa véspera de Natal, todos estavam reunidos à mesa para a distribuição das guloseimas preparadas por Antonina, que chamava cada filho pelo nome para receber o presente. De repente, alguém grita: "Esta parte é do Teodósio!". Saltando pela janela, Teodósio, então, juntou-se à família. Foi grande a alegria por seu regresso e, entre beijos e abraços, Teodósio contava suas façanhas pelo mundo.

Teodósio possuía bela aparência, boas maneiras e facilmente conquistava amizades. Assim, aprontava muitas peripécias. Certa vez o pai precisou ir ao consulado para retirar uma carta proveniente da França, enviada por uma senhora proprietária de uma rica pensão onde Teodósio se hospedara, apresentado por um distinto amigo. Lá ficou por aproximadamente um mês, onde foi tratado como um filho, permanecendo entre os pensionistas de primeira classe. Ao se despedir, deixou o endereço de seus pais, dizendo que os mesmos eram riquíssimos e possuíam muitas propriedades. Por isso, com muita delicadeza, a senhora apresentava na carta a fabulosa conta que o pai deveria pagar, conforme a recomendação de Teodósio. Antonio, então, enviou-lhe outra correspondência, dizendo que infelizmente ela deveria ter se informado antes sobre a condição financeira de seu hóspede.

Em determinada ocasião, a família foi à capital para assistir às solenidades festivas em comemoração ao centenário de Santo Anselmo, padroeiro de Mantova, cujo corpo estava depositado em uma urna de vidro, exposta para veneração dos fiéis. Outra solenidade também comemorada com muitos festejos ocorria em 8 de setembro, data dedicada à padroeira da vila, Natividade de Nossa senhora. O ponto alto dessas festas era a banda de música, muito admirada por Polycarpo, que era um menino bastante estudioso, primeiro da classe na escola e, em casa, grande colaborador do pai no trabalho.

Sentindo que tinha vocação para a música, ainda criança ingressou na banda para tocar clarineta. Polycarpo trajava um garboso uniforme e, por sua pouca idade, graça e beleza, era o mascote da banda.

Em todas as vilas das imediações também se comemorava as festas de seus padroeiros. Um hábito, na ocasião, era a hospedagem dos músicos pelas famílias locais, que disputavam a alegria de hospedar o gracioso mascote Polycarpo, alvo da atenção de todos.

Hermenegildo, o caçulinha, muito doentinho quando criança, começou a andar apenas aos cinco anos de idade. Quando ingressou na escola, lhe perguntaram: "Gildo, você já aprendeu onde é a porta de entrada da escola?". E ele respondeu, sem demora: "Sim, já aprendi onde é a porta da entrada e também a da saída!". Era uma criança ativa e até o fim de sua vida Hermenegildo sempre foi muito espirituoso.

Elvira aprendia na escola, além das matérias habituais, trabalhos manuais como tricô e costura, inclusive de camisas masculinas, pois na época não havia máquina de costura. Em certa ocasião, a professora de Elvira comprou na capital uma máquina de costura que foi objeto de curiosidade geral e admiração por parte de todos.

Elvira também era catequista na igreja, onde ocupava um lugar reservado ao lado do altar durante a missa. Um dia, estando no seu posto, sua atenção voltou-se para uma senhora que orava fervorosamente, ajoelhada. De sua cabeça pendia um véu negro e rendado. Elvira se perguntava quem poderia ser aquela senhora que tanto lhe chamou a atenção. De repente, a senhora voltou-se para ela, e qual não foi sua surpresa ao reconhecê-la: era sua própria mãe! Acostumada a vê-la na lida doméstica, nunca havia notado o quanto era bonita.

Um costume entre os jovens, na época, era pescar no rio à tardinha, com seus chapéus de palha e todos apetrechos necessários. Lá passavam horas, reunidos alegremente. Elvira tinha três amigas íntimas que sempre a acompanhavam, Éden, Zoraide e Adalgisa, das quais sempre se recordava com muita saudade.

No inverno, outro ponto de encontro dos jovens era o estábulo, cuidadosamente limpo e desinfetado três vezes ao dia, com animais rigorosamente tratados. Lampiões e lanternas a querosene iluminavam o recinto, onde grupos de rapazes cantavam, acompanhados de violões e sanfonas. As jovens, acompanhadas por suas mães, chegavam trazendo cestinhos com seus trabalhos manuais: bordados, costuras e, principalmente, tricô. Ao som da música, pares rodopiavam e as crianças saltitavam alegremente. Naturalmente o cupido também andava por ali atirando suas flechas! Assim como outras jovens, Elvira também tinha seu pretendente, aquele que conquistou seu coração, seu primeiro amor. Ambos se amavam muito e sonhavam com um belo futuro. Mal sabiam que esse sonho era passageiro e, em breve, seria desfeito para sempre.




Escrito por Tânia às 23h07




Parte 5

 

A dor da partida

No lar dos Meneghelli reinavam a paz, compreensão, alegria e bem-estar. Mas, repentinamente, nuvens escuras pairaram nesse céu de tanta felicidade. Alguma coisa preocupava Antonio, que se tornou calado, pensativo e com o olhar distante. Em vão a esposa e filhos indagavam o motivo de tanta mudança em seu comportamento. Finalmente, um dia, Antonio comunicou-lhes que queria mudar-se para o Brasil. Mãe e filhos, entre lágrimas e súplicas, tentaram demovê-lo dessa idéia que, para Antonio, transformou-se em obsessão.

Antonio foi à prefeitura, seu local de trabalho, para expor suas idéias. Seus superiores não acreditaram e disseram: "Estai scherzarendo o sei pazzo?..." (Estás brincando ou é louco?). Antonio respondeu que apenas queria ir ao Brasil. Perguntaram-lhe, então, se queria um aumento de salário, argumentando que mais tarde, na velhice, seria útil ter uma boa aposentadoria. Tentaram argumentar, ainda, dizendo que no Brasil havia necessidade de trabalhadores rurais e que ele nunca tido trabalhado com isso. Certamente, diziam eles, iria se decepcionar assim como já havia acontecido com tantos outros. Porém, nada fez com que Antonio mudasse de idéia.

Antonio dizia à esposa que temia pelo início de uma guerra e não queria que seus filhos homens fossem obrigados a participar dela. Permanecendo na Itália, seria impossível evitar que isso acontecesse. Além do mais, conhecidos seus já estavam vivendo bem no Brasil há anos.

Os pais e irmãos de Antonio já haviam partido para o Brasil, fixando residência em Colatina, no Estado do Espírito Santo. Passados alguns anos, José Meneghelli, o pai de Antonio, para proteger-se de um temporal no campo, refugiou-se sob uma árvore que acabou tombando e o matou.

Firme em seu propósito, Antonio começou a tomar as providências necessárias para a viagem: tirou os passaportes, comprou passagens de segunda classe no navio, enfim, deixou tudo em ordem para a partida.
Começaram, então, a se despedir de parentes e amigos, do vigário da igrejinha e de todas as recordações de sua terra natal. Em cada canto, uma saudade...

Polycarpo despediu-se de seu professor, que lamentou muito por sua partida, já que era um ótimo aluno e muito querido. Disse-lhe: "Leio sempre os jornais e estou informado de que no Brasil há falta de professores. Você é inteligente e, apesar da pouca idade, poderá ensinar. Separei alguns livros que poderão ajudá-lo muito. Este é meu presente para você".

Teodósio, por sua vez, resolveu permanecer na Itália e foi despedir-se de seus familiares. "Algum dia irei visitá-los", afirmou.
Em prantos e com a alma dilacerada, lançaram o último olhar, despedindo-se de sua casa e de tudo que ficaria para trás, transformando-se em recordações. Só restaria a saudade. Deixar sua pátria tão querida, partir para um país desconhecido, entre um povo estranho, com língua e costumes diferentes, era doloroso demais. Só Deus poderia lhes dar forças nesse momento. Levaram, assim, a dor da separação e o temor do destino que estava traçado.



"Partire è un po’ morire", dice l’adagio, "Ma è meglio partire che morire", aggiunge Carrara.

Appena fatta l’Italia, gli italiani erano troppi, troppo poveri e ancor più malcontenti.

Anche per questo i governi europei spinsero su quello brasiliano per ottenere, nel 1888, l’abolizione della schiavitù.

La conseguente domanda di mano d’opera venne soddisfatta dai Paesi del vecchio continente,ben felici di liberarsi di una massa di miserabili che rischiava di diventare troppo turbolenta."


(Lino Zonin, sobre a peça Merica, Merica, Merica, de Armando Carrara, em Il Giornale Di Vicenza, 14 agosto 2001). 

 

Tradução:

"Partir é morrer um pouco", diz o adágio, "Mas é melhor partir do que morrer", retruca Carrara.

Tão logo unificada a Itália, os italianos eram muitos, muito pobres, e estavam extremamente descontentes.

Talvez por essa razão os governos europeus fizeram pressão sobre o governo brasileiro para que em 1888 fosse abolida a escravidão.

A demanda de mão- de- obra criada com a libertação dos escravos pôde ser satisfeita com a emigração de trabalhadores de países do velho continente, que certamente ficaram muito felizes por livrarem-se de uma massa de miseráveis que poderia provocar sérios tumultos."


Colatina - ES

 

Vista parcial da cidade de Colatina em 1935

 

Vista parcial da cidade, em 2006


Saiba mais sobre a imigração italiana em Colatina - ES

http://www.portalitalia.com.br/historia/es/colatina.asp




Escrito por Tânia às 22h40




Parte 6

 

A VIAGEM

A família de Antonio Meneghelli embarcou em 1.886 num navio, cujo nome não meu recordo, para uma viagem que deveria durar aproximadamente um mês.

Ao passarem pela alfândega, dois guardas revistaram a bagagem e abriram uma canastra onde Antonina colocara um lindo quadro da Madona Adolorata (Nossa Senhora das Dores). Os guardas contemplaram a imagem por alguns instantes e fecharam respeitosamente a canastra, sem tocar em mais nada. Esse quadro sempre esteve na cabeceira da cama de meus avós e ali permaneceu até os últimos dias de suas vidas.

Apesar da angústia, foram dias de muita felicidade, pois a alegria no navio era contagiante. Foram muito bem acolhidos e, embora ocupassem a segunda classe, tiveram tratamento semelhante aos mais privilegiados, com todas as regalias. Rapidamente conquistaram a simpatia de todos.

Polycarpo e Hermenegildo travavam amizade com os marinheiros e excursionavam pelo navio. Elvira juntou-se a outras jovens e também divertia-se muito. Antonio jogava cartas com seus companheiros e Antonina fora escalada para abrir massa de espaguete na cozinha, tarefa que fazia com grande prazer, pois era muito habilidosa.

Um elegante genovês, sobrinho do comandante do navio, se apaixonou por Elvira logo que a viu. Assim, propôs a ela e a seus pais que, caso estivessem de acordo, quando o navio retornasse à Itália, Elvira regressaria com ele e ficaria interna num colégio de Gênova, até que ele concluísse seus estudos na Marinha, dentro de dois anos, quando se casaria com ela. No entanto, nem Elvira, nem sua família concordaram com a separação.

O padeiro do navio também se apaixonou por Elvira. Logo ao amanhecer levava deliciosos pãezinhos à mesa da família e não perdia a oportunidade de declarar seu amor por ela. Embora jamais tivesse sido correspondido, ele não perdia a esperança de conquistá-la.

O navio atracou na Ilha das Flores, no Rio de Janeiro, e os viajantes ficaram surpresos ao ver os africanos de pele negra, pois foi a primeira vez que tiveram contato com essa raça. Nem imaginavam que pudesse haver raças tão diferentes no mundo. Os negros ofereciam suas mercadorias, principalmente abacaxis e jacas, que os viajantes acreditavam tratar-se de gigantescos figos da Índia.

Os dias foram passando e as jovens e suas mães tricotavam e bordavam. Havia um casal que viajava com duas meninas vestidas com tanto tricô feito no navio que até pareciam duas bolas andantes!

No final da viagem, ao retomar suas bagagens, Polycarpo notou com tristeza que o caixote com os livros que ganhou do professor havia sumido.

Ao despedir-se, o padeiro insistiu no seu pedido à Elvira, declarando que, caso ela o aceitasse, ele deixaria o emprego. Ela, no entanto, respondeu-lhe francamente que não deveria perder o emprego por sua causa, pois ela não o amava e, portanto, não poderia corresponder-lhe.


CHEGADA AO BRASIL
Hospedaria dos Imigrantes

A família desembarcou no Porto de Santos e, por ordem do consulado italiano, foram de trem até São Paulo, onde se instalaram na Hospedaria dos Imigrantes à espera de seguir seu destino. Na ocasião lhes foi devolvido o dinheiro das passagens, sem que entendessem o porquê. Na verdade, por terem sido incluídos como imigrantes, receberam esse benefício.

 


Passados alguns dias, o padeiro apaixonado foi visitá-los, afirmando que, por causa de Elvira, desistira do emprego e seu navio já partira. Dizia que não se conformava por ela não lhe corresponder e lastimava, finalmente, por estar sem ela e sem o emprego. A linda jovem, então, lhe respondeu: "Nunca alimentei suas esperanças. Ao contrário, o aconselhei a não deixar o emprego. Você fez isso porque quis". Sabendo que a família seguiria em direção à cidade de São Carlos, o padeiro ainda insistiu, dizendo que a escreveria e que, caso mudasse de idéia, imediatamente iria vê-la.



Hospedaria dos Imigrantes - Galeria de fotos

 

 

Fachada da hospedaria, Bairro do Brás - São Paulo 

 


Imigrantes italianos na hospedaria

 

 

Imigrantes italianos na hospedaria

 


Refeitório


Saiba mais sobre a imigração italiana no Brasil:

http://www.memorialdoimigrante.sp.gov.br/

http://www.geocities.com/Athens/Agora/3649/

http://www.portalitalia.com.br/historia/historia.asp




Escrito por Tânia às 22h23




Parte 7

 

DESTINO: SÃO CARLOS

O Consulado Italiano determinava os destinos dos imigrantes que chegavam ao Brasil. Assim, a família de Antonio Meneghelli seguiu de trem até a cidade de São Carlos - SP, onde também permaneceram numa hospedaria para imigrantes. Alguns dias se passaram até que dois empregados de uma fazenda vieram buscá-los com um carro de boi. Soluçando, obedeceram aos empregados e partiram, juntamente com outras famílias.

Depois de atravessarem a cidade, embrenharam-se no mato. Às vezes, para caçoar dos imigrantes, os empregados paravam o carro e gritavam: "Pinga! Maria Pinga!...". Os passageiros, que nada entendiam, julgavam que fosse uma ordem para descer do carro. Logo que desciam, os empregados gargalhavam e vagavam para lá e para cá, assobiando e rindo dos italianos.

Ao entardecer, chegaram à fazenda, de cujo proprietário não me recordo o nome. Depois de se lavarem no rio, foram levados à casa do fazendeiro e entraram na sala de jantar, onde havia uma grande mesa. O fazendeiro ocupava a cabeceira da mesa, ladeado por seus familiares. Depois de apresentados, ocuparam seus lugares. Ficaram admirados com a fartura de queijo ralado que estava à disposição. Na realidade, porém, tratava-se  de farinha de mandioca, alimento que eles não conheciam.

Antonina não conseguia conter suas lágrimas e chorava copiosamente. O fazendeiro, compadecido, indagou porque ela não comia e chorava tanto. Perguntou se algum filho dela havia morrido. A pobrezinha, soluçando, respondeu-lhe em seu dialeto. Percebendo que não se entenderiam, o fazendeiro mandou chamar um rapaz que aparentava aproximadamente 25 anos. Era alto, forte, de cabelos claros e olhos castanhos um tanto tristonhos. Seu nome era Emanuel.

O fazendeiro ordenou a Emanuel: "Mandei te chamar porque me parece que essa família de patrícios seus não está gostando daqui. As mulheres choram muito e não nos entendemos. Por favor, diga-lhes que, se não quiserem ficar, pagarei a viagem de retorno a São Paulo. Lá se entenderão com o Consulado Italiano". Emanuel prontamente respondeu: "Si, si, vá bene signore!". Mas ao deparar com aquela linda jovem de olhos marejados, seu coração pulsou fortemente. Apaixonou-se à primeira vista por Elvira e imediatamente teve uma idéia. Mudou tudo o que o fazendeiro pedira para dizer-lhes e os aconselhou a terem mais paciência, pois era natural que estranhassem a nova vida. Logo acabariam se habituando e até gostando do lugar. O dialeto que falavam era muito diferente, mas como Emanuel dominava a língua toscana ensinada nas escolas, todos acabaram por se entender.


DIFÍCIL ADAPTAÇÃO

Foi extremamente doloroso para a família ver sua nova moradia, feita de pau a pique, com chão batido e telhado de sapé. Não imaginavam que existissem casas assim, tão precárias. Muitas lágrimas foram derramadas até que se conformassem com a nova situação.

Todas as tardes, após o jantar, Emanuel os visitava, consolando-os com sua presença e sua conversa. Aproveitava também para lhes ensinar a língua portuguesa. Emanuel cuidava da horta e do pomar da fazenda. Logo ao amanhecer colhia as melhores frutas  e hortaliças e as despejava pela janela da amada.

Apesar de toda a dedicação de Emanuel, seu amor por Elvira não era correspondido. Ela ainda não havia esquecido do grande amor que ficara na pátria tão distante e do qual, agora, só restavam saudades.

Em certa ocasião, Elvira estava na companhia do irmão lavando roupas no rio. Por serem muito claros, com pele delicada e faces rosadas, usavam chapéus de palha como proteção por causa do sol forte. Na época, Elvira estava com 16 anos e seu irmão Polycarpo com 14. Nesse momento chegou um dos empregados, com ordem para que os acompanhassem até a presença do fazendeiro. Eles manifestaram o desejo de ir até sua casa para trocar as roupas e deixar os chapéus, por acreditavam não estarem apresentáveis para ir até a casa grande. O empregado, porém, não permitiu, dizendo que a ordem era para irem imediatamente.

Ao chegarem na sala onde os aguardavam parentes e amigos do fazendeiro, os pobrezinhos sentiram-se muito envergonhados. O fazendeiro lhes disse que queria que dançassem e cantassem para todos, pois um dos presentes afirmava tê-los visto cantar e dançar ao som de um violino em São Paulo. Os irmãos, confusos, disseram que possivelmente tratava-se de um engano, pois jamais dançaram e cantaram em público.

Aproveitando-se da oportunidade, o fazendeiro propôs à Elvira que se casasse com um de seus sobrinhos ali presente, que também encantou-se por ela. O sobrinho reiterou seu pedido, dizendo que possuía bens suficientes para enriquecê-la e também a toda sua família. Elvira, porém, não aceitou.


Localização da Cidade de São Carlos

 


Fotos antigas de São Carlos

Teatro Nacional de São Carlos, fundado em 1793, onde Polycarpo Meneghelli, irmão de Hermenegildo Meneghelli,  foi maestro


 

Inauguração da estação ferroviária, em 27/12/1914


Fotos atuais da cidade de São Carlos

Vista noturna

 

Vista aérea

 

Campus da USP 




Escrito por Tânia às 20h47




Parte 8

 

EMANUEL MICELI, O PRETENDENTE DE ELVIRA

Um dia Emanuel contou sua história para a família de Antonio Meneghelli. Havia aproximadamente dois anos que ele imigrara ao Brasil. Era o segundo filho do casal Antonio e Rosa Nanci Miceli. Seus irmãos chamavam-se Rafael, Domingos, Francisco, Tomáz, José e Maria Angélica. Seu pai era comerciante e residia em Pianopoli, província de Catanzaro, na Calábria. Todos seus irmãos tinham um ofício e ele sempre cuidou da horta e do pomar.

Todas as tardes, na Itália, ele e os irmãos saíam após o jantar para conversar com amigos. Porém, quando o pai, bastante rigoroso, ía à janela e dava um assobio, sabiam que era hora de entrar e assim sempre faziam.

Numa determinada noite, porém, Emanuel não acatou a ordem do pai e continuou na esquina próxima, conversando com amigos. Ao regressar, seu pai estava irritado e o repreendeu energicamente. Emanuel, pela primeira vez, retrucou dizendo que não era mais criança e que já completara 23 anos. Discutiram até tarde da noite e não se entenderam. No dia seguinte, Emanuel logo tratou de arrumar seus documentos e viajou para o Brasil, sem reconciliar-se com o pai. Apesar disso, escrevia frequentemente para a mãe e irmãos.

Percebendo que por mais que fizesse não conseguia conquistar o amor de Elvira, inconformado, Emanuel apelou para a tragédia. Um dia subiu no telhado de sua casa e com um revólver em punho ameaçou suicidar-se, caso ela não o correspondesse. Houve susto, gritos e correria. Finalmente conseguiram acalmá-lo.

Os pais temiam pelo futuro de sua querida filha, num ambiente que consideravam cheio de perigos. E como Emanuel a amava verdadeiramente e era um grande amigo da família, aconselharam Elvira a aceitar o pedido de casamento. Filha obediente e já simpatizando mais com Emanuel, Elvira o aceitou e finalmente ficaram noivos.

Nessa época, Antonio já era encarregado de todo o serviço de carpintaria da fazenda e contava com a ajuda dos filhos Polycarpo e Hermenegildo para dar conta do trabalho.

Certo dia, tendo que ir à cidade, Emanuel perguntou à noiva se queria algo. Ela, então, pediu-lhe que fosse ao correio retirar uma carta que estaria endereçada a ela. Quando regressou, Antonio lhe entregou a carta, intacta, para que a lesse. Em seu íntimo, Elvira admirou a honestidade do noivo em não abrir a carta para conhecer seu conteúdo. Elvira entregou a carta ao noivo para que também a lesse e, de comum acordo, picaram-na e deixaram que o vento levasse seus pedaços embora. Emanuel repetia: "Ti voglio tanto bene!...". Assim, o vento levou embora também as esperanças do padeiro apaixonado por Elvira.

Numa tarde, a esposa do fazendeiro, senhora distintíssima, foi visitar a família de Elvira e viu um par de meias que ela começou a tricotar no navio. Percebendo que a senhora havia gostado muito do trabalho, a mãe de Elvira a pediu que, quando acabasse, deveria presenteá-la com as meias. Esta, em agradecimento, deu-lhe uma peça de fazenda. Elvira, radiante com o presente, contou ao noivo o que havia acontecido. Cheio de ciúme e irritado com a proximidade entre Elvira e a família do fazendeiro, no dia seguinte Emanuel foi até a casa grande para tirar satisfações. Como consequência, foi expulso da fazenda.

Emanuel encontrou trabalho em outra fazenda. Embora tivesse que enfrentar inúmeros perigos, todas as noites  entrava escondido na fazenda onde Elvira vivia e não descansou até que a família também se mudasse para o local onde ele trabalhava no momento.


Mapa da Calábria, terra natal de Emanuel Miceli

(destaque  para a província de Catanzaro, onde sua família residia)



CASAMENTO DE ELVIRA E EMANUEL

Finalmente o casal marcou a data de seu casamento, que seria realizado apenas no religioso, já que nessa época ainda não havia o registro civil. Para certificar-se da formação religiosa dos nubentes, o padre pediu que a cerimônia fosse adiada por alguns dias, pois percebera que a noiva tinha uma boa formação nesse sentido, porém, o noivo precisaria fazer um curso. Não houve acordo com Emanuel e o padre teve que celebrar o casamento de qualquer maneira. A união aconteceu na Catedral de São Carlos Bartolomeu, em 08/05/1888.




Escrito por Tânia às 20h09




Parte 9

 

ROTINA DO CASAL E NASCIMENTO DOS FILHOS

Algum tempo depois do casamento, numa determinada madrugada, o casal acordou sobressaltado com fortes batidas na porta. Emanuel, apreensivo, levantou-se imediatamente e ao abrir a janela defrontou-se com dois negros fortes, capangas da antiga fazendo onde trabalhara e fora expulso. Os homens afirmaram que estavam ali para matá-lo por ter retirado a Família Meneghelli da fazenda. Disseram também, no entanto, que não cumpririam a ordem que receberam, pois tinham por ele grande consideração e gratidão pela amizade que sempre lhes dedicara. Advertiram-lhe, porém, de que jamais deveria abrir a porta sem antes certificar-se de quem batia, pois o patrão poderia mandar outros para matá-lo.

Os meses passaram sem grandes surpresas, quando, no ano seguinte, a alegria invadiu o coração de todos, com o nascimento do primogênito do casal, em 11/03/1889. O menino recebeu o nome de Antonio, em homenagem ao avô materno. Seus padrinhos foram o fazendeiro e sua senhora.

Em 27/02/1890 nasceu o segundo filho, que recebeu o nome de Polycarpo, em homenagem ao tio materno. Foram seus padrinhos a filha e o genro do fazendeiro. Uma curiosidade da época é que os enxovais utilizados pelas crianças no batizado eram apenas emprestados, já que deveriam ser utilizados em muitas outras cerimônias. Mas, em compensação, as madrinhas presenteavam cada afilhado com uma peça de fazenda.

Algum tempo passou e o casal resolveu sair da fazenda para ir morar na cidade. Foram para a Rua Marechal Deodoro, esquina com Rua José Bonifácio. Os pais de Elvira também mudaram-se para uma casa vizinha a dela.

Em 21/02/1892 o casal teve seu terceiro filho, Domingos, que recebeu esse nome em homenagem a seu tio paterno. Seus padrinhos foram o tio Polycarpo e Maria, uma jovem amiga de sua mãe.

Algum tempo passou e Emanuel resolveu abrir um armazém na Rua General Osório e para lá se mudaram. Em 28/05/1893 nasceu o quarto filho, chamado José, também em homenagem a um dos tios paternos. Seus padrinhos foram Antonio e Antonina, pais de Elvira.

O pequeno Domingos permanecia na casa dos avós. Numa manhã, bem cedo, Antonina chegou à casa de Elvira com o netinho no colo e chorando copiosamente. Contou que tarde da noite, suas vizinhas (mãe e filha), começaram a gritar e pedir socorro, pois dois ladrões estavam invadindo sua casa. Seu esposo Antonio e o filho Hermenegildo correram para ajudá-las. Nesse instante a polícia chegou e, sem que percebessem, os ladrões fugiram, enquanto as mulheres permaneciam trancadas na casa. Os policiais, julgando que eles fossem os assaltantes, os levaram para a cadeia, onde foram maltratados, espancados e permaneceram presos.

Emanuel e seu cunhado Polycarpo, que nessa época já estava casado, dirigiram-se à casa do representante do consulado italiano, que prontamente os acompanhou à delegacia. Lá chegando, não conseguiram convencer o delegado do equívoco e, assim, Antonio e Hermenegildo continuaram presos. Posteriormente, o delegado resolveu ouvi-los com mais atenção e os liberou, aconselhando-os a nunca mais saírem de casa para defender ninguém, pois essa era tarefa da polícia.

Passado algum tempo, Emanuel comprou um sítio no Can-Can, em Água Vermelha, para onde mudou-se com a esposa e filhos. Lá abriu um novo armazém. Nessa época, em 23/10/1894 nasceu o quinto filho do casal, Francisco, que recebeu esse nome em homenagem ao tio paterno. Os padrinhos foram um casal de amigos da família. Infelizmente o menino faleceu antes de completar dois anos de idade.

No sítio, Emanuel possuía uma mula adestrada. Quando era necessário mandar um recado para os sogros, Emanuel escrevia um bilhete e o colocava entre os arreios do animal, que se dirigia para a casa na cidade. Lá providenciava-se o que era necessário e colocava-se novamente na mula, que regressava diretamente para o sítio, com a missão cumprida.




Escrito por Tânia às 19h57




Parte 10

 

MILAGRE DE SÃO JOSÉ

Numa determinada manhã, José, o quarto filho de Elvira e Emanuel, levantou-se da cama com os olhos fechados e, por mais que os pais tentassem ajudá-lo, não conseguiam abri-los. Levaram, então, o menino ao médico da clínica geral, Dr. Serafim V. Almeida, muito conceituado na cidade, que propôs um tratamento diário. Antonina, a avó do menino, incumbiu-se de levá-lo diariamente à clínica. Com isso, Dominguinhos, que ficava com os avós, voltou para o sítio.

Era mês de outubro e todas as manhãs, antes de ir ao médico com o neto, Antonina dirigia-se à igreja e ajoelhada aos pés de São José pedia para que seu netinho recuperasse a visão. Durante seis meses consecutivos ela perseverou no tratamento e na oração. Como por um milagre, exatamente em 19 de março, dia dedicado a São José, o pequenino José abriu os olhos e pôde novamente contemplar a luz do dia. Antonina, ajoelhada aos pés de São José, derramava lágrimas de alegria e reconhecimento. O médico, então, declarou sua cura completa.

Entusiasmada, Antonina queria imediatamente contar a novidade aos pais do menino. Como todos estavam trabalhando e não poderiam acompanhá-la, Antonina aventurou-se a viajar sozinha pela primeira vez. Porém, chegando a Monjolinho, o trem parou para abastecer-se de água. Antonina, julgando ter chegado ao seu destino, saltou do trem carregando o menino. Logo, porém, notou que se enganara.

Aflita, angustiada e perdida num lugar estranho, novamente passou a pedir auxílio aos céus.

A resposta não tardou a chegar e, de repente, surgiu um amigo da família, Sr. Antonio Tonissi, que ao vê-la, apressou-se a perguntar o que houvera. Logo tratou de tranquilizá-la, carregando o menino nos braços para acompanhá-los até a casa da filha.

Percorreram um longa distância e, finalmente, toda a angústia de Antonina desapareceu ao ver a imensa alegria dos pais e irmãos de José por sua recuperação.


CHEGADA DOS IRMÃOS DE EMANUEL

Algum tempo se passou e Emanuel vendeu o sítio em que vivia com a família, incluindo o armazém. Com o dinheiro, comprou um pequeno terreno na parte alta da cidade (Rua Marechal Deodoro com Aquibadan) e, como tinha habilidade para qualquer tipo de trabalho, com a ajuda do sogro e dos cunhados construiu uma casa confortável e um novo armazém.

Ja havia algum tempo que seu irmão Domingos viera da Itália. Como era marceneiro, foi incumbido de fazer os móveis para a nova casa de Emanuel. Domingos casou-se com a jovem Josefina Miceli, por coincidência com o mesmo sobrenome de sua família. Daí surgiu a família Miceli Miceli.

Os pais de Josefina possuíam uma chapelaria na Av. São Carlos. Ela tinha dois irmãos, Bartolomeu e Fortunato, que se mudaram para Araraquara logo após o falecimento de seus pais. Nessa cidade continuou a descendência dos Miceli.

Domingos abriu um armazém na Av. São Carlos e com a esposa Josefina teve quatro filhos: Antonio, Rosa, Ítalo e Olga. Depois de algum tempo, Domingos e Josefina regressaram para a Itália e se corresponderam com minha família até suas mortes. Os quatro filhos não quiseram acompanhar os pais e mudaram-se para os Estados Unidos.

Além de Domingos, também vieram para o Brasil outros dois irmãos de Emanuel, Tomáz e Francisco, que logo voltaram para a Itália. Outro irmão, Rafael, chegou ao Brasil trazendo consigo dois filhos menores, Antonio e Francisco. Seu desejo era se estabelecer para depois buscar a esposa que havia permanecido na Itália. Infelizmente não pôde realizar seu objetivo, porque faleceu na época da febre amarela. Seus filhos, então, ficaram sob os cuidados dos tios e, mais tarde, mudaram-se para Araraquara, onde se casaram.




Escrito por Tânia às 19h36




Parte 11

 

A PRIMEIRA FILHA DE ELVIRA E EMANUEL

Deus abençoou a nova casa de Elvira e Emanuel com o nascimento da primeira menina, tão esperada, em 24/01/1896. Ela recebeu o nome de Rosina, em homenagem à sua avó paterna. Seus padrinhos foram seu tio Domingos, irmão de Emanuel, e Josefina Pugliese, uma parente distante.

No dia de seu batizado, a família ofereceu uma grande festa e enfeitou a casa toda. Polycarpo, irmão de Elvira, trouxe a banda da qual era regente para animar a comemoração. Emanuel transbordava de alegria e distribuía doces para as crianças da rua. Pares valsavam alegremente, havia comida farta, com sanduíches, polenta e linguiça assada na grelha.

Eis que no melhor da festa surgem dois policiais perguntando pelo dono da casa. Esclareceram Emanuel de que estavam ali porque receberam uma reclamação da vizinha de sua casa, que queixava-se por estarem atirando pedras em seu telhado. Mas tranquilizaram a todos, dizendo que já estavam observando a movimentação há mais de uma hora e não notaram nenhuma irregularidade. Informaram que não iriam mais incomodá-los e, portanto, a festa familiar poderia continuar sem problemas. Agradecido pela gentileza dos policiais, Emanuel os convidou para comer alguma coisa e tomar umas cervejas.

Logo que os policiais se retiraram, porém, um grupo de rapazes, comandados por Hermenegildo, resolveu se vingar da calúnia lançada pela vizinha e atiraram pedras no telhado da coitada até o dia raiar!

Essa vizinha, Dona Maria, uma senhora portuguesa, tinha por hábito reclamar de seus vizinhos na delegacia. Certo dia, o delegado se cansou das queixas e a aconselhou a mudar-se para uma casa no meio do mato, já que ela não poderia ser vizinha de ninguém. E, assim, ela deixou de perturbar a tranquilidade da família de Emanuel.


EMANUEL VIAJA À ITÁLIA PARA RECONCILIAR-SE COM O PAI

Com muita saudade de seus pais, Emanuel decidiu viajar à Itália para revê-los. Queria, especialmente, pedir perdão ao pai por ter vindo ao Brasil sem que houvessem se entendido depois da discussão que tiveram. Elvira, esposa compreensiva e generosa, aceitou a responsabilidade de cuidar dos cinco filhos, da casa e também do armazém. Confiava no auxílio divino e de seus familiares, sempre prontos a colaborar. 

A viagem de Emanuel durou seis meses, tempo superior ao normal, porque houve um incêndio no navio, que precisou ser substituído. Apenas dois meses após a ida de Emanuel à Itália, seu pai faleceu. Entretanto, felizmente, teve a oportunidade de rever o filho e se reconciliar com ele antes de sua morte.




Escrito por Tânia às 19h09




Parte 12

 

Chegada de mais um irmão de Emanuel

Francisco, outro irmão de Emanuel, também veio ao Brasil. Como manifestava o desejo de abrir um açougue, Emanuel logo prontificou-se em ajudá-lo. Foi aprender a fazer corte de carnes, alugou um salão comercial, enfim, tomou todas as providências necessárias para encaminhar o irmão nesse ramo.

Francisco, porém, apenas observava a tudo sem tomar nenhuma iniciativa. Cansado da inércia do irmão, um dia Emanuel se irritou com a situação e lhe repreendeu duramente: "Francisco, afinal de contas, esse açougue é seu ou meu? Deixo todos os meus afazeres para ajudá-lo e você permanece de braços cruzados!...". Por fim os dois irmãos se desentenderam seriamente e, após a discussão, o açougue foi fechado e Francisco retornou à Itália. 

Nessa época, Emanuel e Elvira tiveram mais um filho, em 01/03/1898, e em homenagem ao irmão, Emanuel o registrou com o nome de Francisco. No entanto, como houve o desentendimento entre eles, Emanuel arrependeu-se do registro que havia feito e, assim, no batismo, o menino recebeu o nome de Alberto. Dessa forma, o menino cresceu, tornou-se adulto e todos o conheciam pelo nome de Alberto, o que lhe trouxe sérios problemas quando se casou, como veremos mais adiante.


NASCIMENTO DOS ÚLTIMOS FILHOS DO CASAL

Em 17/04/1900 o casal teve mais uma menina, que foi registrada e batizada com o nome de Helena, em homenagem à rainha da Itália. A menina, porém, sobreviveu apenas por 20 dias e faleceu em 07/05/1900.

Outro filho de Emanuel e Elvira nasceu em 01/10/1901. Recebeu o nome de Hermenegildo, em homenagem ao tio materno e seus padrinhos foram um amigo sírio, comerciante de fumos, e sua tia Angelina.

Em 03/12/1902 nasceu outra menina, que também recebeu o nome de Helena* para substituir a irmã que havia falecido. Seus padrinhos foram seu próprio irmão Antonio, ainda bem jovem, e sua tia Maria.

Finalmente, em 21/08/1904 nasceu o caçula da família de Emanuel e Elvira. Recebeu o nome de Victório, em homenagem ao rei da Itália. Seus padrinhos foram seus avós.

* Helena é a autora desse manuscrito


DESEJO DE RETORNAR PARA A ITÁLIA

Entre todos os irmãos de Emanuel, apenas dois nunca vieram ao Brasil: José e Maria Angélica. Emanuel sempre se referia a essa irmã como sendo uma jovem de rara beleza e que possuía um enxoval fabuloso, como era costume na região onde viviam. Era uma espécie de compensação às filhas mulheres, pois a herança dos pais era destinada apenas aos homens.

Seu irmão Domingos, logo que retornou à Itália, montou um grande e bem sucedido armazém. Por essa razão, sempre escrevia insistindo para que Emanuel se mudasse para lá com a família.

Emanuel decidiu que seria uma boa idéia e estava apenas aguardando uma boa oportunidade para vender sua casa e rumar de volta à Itália. Para facilitar esse processo, pediu ao irmão para que naturalizasse todos os seus filhos em sua pátria, o que foi feito conforme sua vontade.

Em família todos falavam apenas a língua italiana, embora mal pronunciada. Havia dois motivos para isso: para que os avós pudessem se comunicar melhor com os netos e também para que eles tivessem mais facilidade com o idioma quando se mudassem para a Itália.

Finalmente surgiu a oportunidade tão aguardada por Emanuel. Certo dia duas freiras foram conversar com Elvira, explicando que eram francesas e que lecionavam para meninas. Como estavam vivendo num imóvel alugado, pretendiam comprar um quarteirão para construir um grande colégio para alunas internas e externas. Consideraram a propriedade de Emanuel um excelente ponto, pois ficava bastante próximo da chácara que a irmandade possuía. Esclareceram a Elvira que vieram conversar com ela porque já haviam falado com todos os proprietários dos imóveis que lhes interessavam, inclusive com Emanuel, que já havia concordado com a venda e aguardava apenas o consentimento da esposa.

Elvira, porém, afirmou que concordaria com o marido, já que esse era seu desejo, mas contra sua própria vontade. Explicou que, embora tivessem nove filhos menores de idade, alguns já estavam encaminhados aprendendo seus ofícios e outros frequentando a escola. Temia que eles estranhassem a diferença do clima, dos costumes, enfim, teriam que recomeçar do zero.

As irmãs compreenderam as razões de Elvira e disseram que procurariam outro terreno. Assim foi construído o Colégio São Carlos.


CASAMENTO DE HERMENEGILDO MENEGHELLI

Em 10/11/1900 Hermenegildo se casou com Maria Muñoz, nascida em 20/08/1883, em Málaga - Espanha.




Escrito por Tânia às 13h29




Parte 13

 

ROTINA DE EMANUEL NO ARMAZÉM

Apesar do gênio explosivo, Emanuel tinha bom coração e estava sempre pronto a ajudar o próximo, sem distinção de classe, raça ou religião. Todos eram bem-vindos à sua mesa e até prova em contrário, não desconfiava de ninguém.

Seu armazém era muito bem sortido, com mercadorias que trazia de São Paulo quando viajava a negócios. Além das mercadorias para seu comércio, Emanuel sempre se lembrava de trazer um agrado para a esposa, uma jóia, vestidos e diversos presentes que destinava também à filha Rosina e à sobrinha e afilhada Hermínia. Não se esquecia, porém, da pequena Helena, que também ganhava seus presentes comprados com frequência na região.

Emanuel atendia seus fregueses na parte da manhã. À tarde, quando não viajava a negócios, gostava de cuidar da horta e do pomar, tarefa realizada com muita dedicação e carinho.

Certo dia, sua mãe Antonina, entrando no armazém, percebeu que um homem aproveitou-se de um momento em que não havia ninguém por perto e furtou algumas postas de toucinho salgado. Quando o ladrão notou que havia sido descoberto, rapidamente fugiu do local, levando a mercadoria roubada.
Antonina imediatamente deu o alarme. Emanuel, então, pegou uma corda e correu para apanhar o ladrão, que corria ladeira abaixo, pela Rua Aquibadan. Com agilidade, Emanuel enlaçou o homem, o amarrou e o levou à delegacia. O delegado elogiou sua bravura e disse a seus guardas: "Esse cidadão, sozinho, apanhou um ladrão. E vocês? O que estão fazendo aqui?". Os soldados acompanharam Emanuel e o elogiaram, mas pediram que ele não repetisse mais essa façanha, pois eles acabariam ficando mal vistos como autoridades.

Numa outra ocasião, entrou no armazém um homem franzino, negro, que pediu diversas mercadorias, rapidamente guardadas num saco. Por último, pediu uma lata de manteiga, que estava na prateleira mais alta. Quando Emanuel subiu na escada para apanhar a lata, o homem saiu correndo com as mercadorias que já havia pedido antes. Mais que depressa, Emanuel tratou de persegui-lo. O homenzinho, porém, sumiu na escuridão.

Passados alguns meses, o mesmo homenzinho voltou ao armazém, disfarçado com um chapéu que escondia parte de seu rosto. Trazia uma garrafinha, a qual pediu que Emanuel enchesse de pinga. Emanuel logo o reconheceu e, fingindo pegar a garrafa de sua mão, o agarrou pela gola do paletó. Mas o paletó acabou rasgando e o homem fugiu. Restou para Emanuel apenas o pano rasgado nas mãos. Emanuel revistou os bolsos do paletó rasgado e encontrou um cartão postal, que continha gravado um coração vermelho com letras douradas. Espirituoso, Emanuel pendurou a parte do paletó num gancho do teto e colocou o cartão postal em exposição numa vitrine. Isso servia de algazarra para a criançada.


DIA-A-DIA EM CASA

Emanuel estava sempre muito ocupado, porém, nas poucas horas vagas que tinha, gostava de entalhar objetos para presentear os filhos. Numa determinada ocasião, fez para as filhas dois pequenos oratórios muito belos, com uma imagem da Virgem. Para os meninos fez bonequinhos no trapézio. Esses objetos foram conservados durante muito tempo, como recordação de Emanuel. Outra coisa que Emanuel gostava muito de fazer era descascar laranjas para toda a família.

Emanuel costumava jantar muito cedo e sempre exigia, a seu lado, a companhia de Victório, seu filho caçula. Muito atencioso com os filhos, logo percebeu a vocação precoce do filho Gildo pelo desenho e o incentivou para dar continuidade a esse talento.




Escrito por Tânia às 01h03




Parte 14

 

A MORTE DE EMANUEL

Num determinado dia, subitamente, Emanuel chamou a esposa e disse: "Elvira, vamos fazer um trato? Se você morrer primeiro que eu, prometo que diariamente visitarei sua sepultura com todos os nossos filhos. Você promete que se eu morrer primeiro fará isso por mim?". Elvira, aborrecida com esse tipo de conversa, respondeu: "Não prometo, porque isso é impossível. Você não morrerá antes de mim."

Em 01/01/1909, Emanuel estava na esquina de sua casa e avistou um devedor de seu armazém, que logo tratou de desviar de seu caminho para não lhe pagar o que devia. Emanuel resolveu enfrentá-lo e passou a segui-lo. O homem, percebendo que Emanuel estava atrás dele, correu em direção a um aglomerado de casas próximo da Santa Casa e ali desapareceu. Era um dia bastante chuvoso e Emanuel, desanimado, desistiu da perseguição e voltou para sua casa. Chegou queixando-se de fortes dores nas pernas e foi deitar-se. Elvira se surpreendeu com essa atitude, pois em tantos anos de convivência nunca o viu deitar-se durante o dia.

No dia seguinte Emanuel ardia em febre. Elvira lhe disse que chamaria um médico e perguntou qual ele gostaria que chamasse. Emanuel indicou um médico desconhecido e sua esposa estranhou essa decisão, já que os médicos que sempre os atenderam eram considerados os melhores da cidade. Emanuel reafirmou que queria ser visto pelo médico que indicara, porque ele era um patrício seu e tinha sua total confiança.

O tratamento de Emanuel foi iniciado, porém ele não melhorava. Dia após dia seu estado piorava significativamente. Um dia ele manifestou o desejo de ver a videira que plantara. Os cunhados Polycarpo e Hermenegildo o colocaram numa cadeira e o levaram até o pomar, onde ficou a contemplar as inúmeras árvores frutíferas e a linda parreira, coberta por folhas muito verdes e carregada de cachos de uvas já prontos para serem colhidos. Emanuel sentiu-se orgulhoso com o fruto de seu trabalho e chorou, como se estivesse se despedindo de tudo que lhe era mais querido.
Como o estado de Emanuel se agravou bastante, a família resolveu convocar os dois melhores médicos da cidade, Dr. Serafim V. Almeida e Dr. Gastão de Sá, que informaram que o tratamento para seu problema deveria ser outro, completamente diferente do que vinha sendo administrado. No entanto, afirmaram que para Emanuel já era tarde demais e nada poderiam fazer.

Infelizmente a situação de Emanuel piorou ainda mais e, em 18/01/1909 ele mandou chamar todos os filhos. Ao vê-los, o pai lhes disse: "Meus filhos, de hoje em diante vocês não terão mais seu pai. Obedeçam, respeitem e amem a vossa mãe. Estejam sempre unidos, sejam honestos e trabalhadores."

Ao despedir-se da esposa, entre outras coisas, a fez prometer que não permitiria que a filha Rosina trabalhasse no balcão do armazém. Pediu perdão aos familiares por desentendimentos passados e assim terminou sua existência, aos 47 anos de idade.
Durante o velório, os filhos menores ficaram na casa dos avós, distraindo-se com os primos. Somente após o enterro as crianças foram trazidas novamente para sua casa, que estava triste, sombria... Helena, ao ver o irmãozinho Victório chorando num canto da sala, começou a chorar também e foi procurar pela mãe, que estava desmaiada na cama e rodeada por mulheres que tentavam reanimá-la. É uma triste lembrança que jamais se apagou da memória da família.


Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Poema de Natal - Vinícius de Moares


ELVIRA MENEGHELLI MICELI

Fim de uma jornada de luta e bondade

Muito poderia ser dito sobre essa pessoa tão especial e iluminada, que venceu tantas dificuldades por amor a seus filhos e ao próximo. Mas aqui não caberiam tantas palavras.

Foi um exemplo de virtudes e, com resignação, suportou sofrimentos morais e físicos. Durante um mês, no ano de 1956, sobreviveu graças ao auxílio de aparelhos, para em 30/10/1956 falecer aos 86 anos de idade.




Escrito por Tânia às 15h39




Parte 15

 

HERMENEGILDO MENEGHELLI

Final de uma vida, início de gerações com centenas de descendentes

O filho caçula do casal Antonio e Antonina faleceu de causas naturais, aos 82 anos, na casa da filha Irene, em Araraquara, no dia 27/08/58. Quando Hermenegildo partiu, deixou a esposa, Maria Muñoz Meneghelli, os filhos Reinaldo, Elvira, Emanuele (Vitório)*, Antonio, Mário, Polycarpo, Ermelinda, Irene e Apparecida. Dessa família, atualmente, só duas filhas estão vivas: Hermelinda e Apparecida.

No centro, o casal Hermenegildo e Maria Muñoz Meneghelli. À esquerda, a filha caçula Apparecida. À direita, o filho mais velho Reinaldo. Esta foto foi tirada em 1940, aproximadamente.

* Emanuele Meneghelli (Vitório) era meu avô, pai de meu pai Adelque Hermenegildo Meneghelli


Encerramento da transcrição do manuscrito

Helena Miceli Rossini deixou para as famílias MENEGHELLI e MICELI uma preciosidade, com a narrativa de uma história que iniciou em 13/06/1840 com o nascimento de Antonina Valli Meneghelli (portanto, há 166 anos atrás) e terminou com a morte de Hermenegildo Meneghelli, em 27/08/1958. Foi um relato simples, porém repleto de emoção e sensibilidade, que nos forneceu dados valiosos para o conhecimento de nossa origem.

Infelizmente, não dispomos de dados sobre a própria Helena. Sabemos, apenas, que faleceu no início da década de 80, já com idade avançada, na cidade de São Carlos. Fica aqui, portanto, uma lamentável constatação: a história de Helena se perdeu com sua morte, porque não houve quem se preocupasse, como ela, em dar continuidade ao registro de acontecimentos do cotidiano dessas famílias.

Enfim, o manuscrito nos ofereceu o privilégio de acessar informações que raríssimas famílias podem dispor. Em nome dos milhares de descendentes das famílias Meneghelli e Miceli espalhados por todo o Brasil, agradeço à Helena, pelo presente maravilhoso que nos deixou.



 Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

 E de tudo fica um pouco.

Carlos Drummond de Andrade


Encontre descendentes da Família Meneghelli:

http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=289725

http://www.pmenegh.pop.com.br/meneghelli.htm


Descendentes da Família Miceli:

http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=226605

http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=1986112


FAMÍLIA MICELI

Pessoas que foram citadas no manuscrito

Emanuel Miceli (nasc.: 09/03/1861 - morte: 18/01/1909), casado com Elvira Meneghelli Miceli (nasc.: 18/09/1870-morte:30/10/1956). Casamento em 08/05/1888, na Catedral de São Carlos Borromeu

Filhos:

Antonio Miceli (nasc.: 11/03/1889 - morte: 04/11/1946), casado com Tereza Alário Miceli (morte: 22/08/1978). Casamento em 20/07/1911

Polycarpo Miceli (nasc.: 27/02/1890 - morte: 09/07/1974), casado com Luiza Fazani Miceli (morte: 24/09/1985). Casamento em 19/02/1925

Domingos Miceli (nasc.: 27/02/1892 - morte: 28/05/1964), casado com Filomena Sambiazi Miceli (morte: 04/08/1977). Casamento em 11/12/1913

José Miceli (nasc.: 28/05/1893 - morte: 22/01/1974), casado com Branca Sampaio Miceli (morte: 27/06/1971). Casamento em 18/12/1917

Rosina Miceli Maricondi (nasc.: 24/01/1896 - morte: 14/09/1974), casada com Henrique Maricondi (morte: 18/12/1974). Casamento em 19/06/1919

Francisco "Alberto" Miceli (nasc.; 01/03/1898 - morte: 01/12/1983), casado com Maria Laurito Miceli (morte: 06/08/1957). Casamento em 08/05/1919

Hermenegildo Miceli (nasc.: 01/10/1901 ), casado com Anita Marchioni. Casamento em 01/12/1923

Helena Miceli Rossini (nasc.: 03/12/1902), casada com José Rossini (morte: 04/04/1971). Casamento em 11/04/1955

Victório Miceli (nasc.: 21/08/1904), casado com Isaura de Grandis Micele. Casamento em 08/09/1935

 

Até o início da década de 80, Emanuel e Elvira tinham 40 netos e inúmeros bisnetos. Hoje são centenas de descendentes diretos, fixados em diversas regiões do Brasil.




Escrito por Tânia às 16h58